A REPRESSAO DOS TRABALHADOSRES
NA LUTA CONTRA O AGRONEGÓCIO
Angelo Diogo Mazin[1]
Em 23 de agosto de 1927, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti[2], ou simplesmente Sacco e Vanzetti, foram assassinados por eletrocução pelos Estados Unidos da América. Ambos permaneceram por quase uma década no corredor da morte sob a acusação de terem assassinado dois homens. Em 1925 um homem admitiu a autoria dos crimes. Mesmo assim, Sacco e Vanzetti foram mortos. Nesse período, houveram várias manifestações, inclusive no Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e etc.), pela libertação de Sacco e Vanzetti..
Uma pequena história que poderia passar despercebida, se esquecêssemos um pequeno detalhe: Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti eram dois militantes anarquistas, que migraram da Itália, e não se curvaram diante da exploração capitalista nos Estados Unidos da América.
Se remontarmos a história do Brasil, observamos que o processo de repressão e exploração da força de trabalho é parte orgânica que foi desenvolvida a partir do processo que foi chamado de colonização. Num primeiro momento, a tentativa da exploração do trabalho dos povos originários e conseqüentemente, o assassinato e o extermínio de milhares de pessoas. Num segundo momento, a utilização da força de trabalho escravo, através da exploração dos negros africanos. Obviamente esse processo não se deu de forma pacifica. Era comum os senhores proprietários de terras e dos braços escravizados facilitarem a fuga de alguns negros com roupas infectadas por vírus de varíola. Quando esses chegavam aos Quilombos, disseminava o vírus para os demais, enfraquecendo o processo de resistência.
Já no período Republicano, podemos destacar dois processos de mostra o processo de repressão as formas de resistência dos trabalhadores: Canudos e Contestado. O Arraiá de Canudos[3] (1893 – 97) era uma comunidade de resistência que chegou a uma população de aproximadamente 25 mil pessoas. Temendo que a experiência se expandisse, o Estado brasileiro organizou um processo de repressão (1896 – 97), que levou ao extermínio físico de milhares de pessoas. O canhão, por exemplo, foi uma das principais armas utilizadas contra os combatentes de Canudos. Inclusive, aqueles que se renderam em batalha (homens, mulheres e crianças), foram brutalmente assassinados, sendo na sua maioria degolados e suas cabeças expostas em praças públicas para que fossem servidos como “exemplo”.
Contestado[4] (1912 – 16), foi um processo de resistência de trabalhadores que viviam no campo. Se desenvolveu entre o norte de Santa Catarina e o sul do Paraná, devido a construção de uma estrada de ferro, que desalojava milhares de pessoas das suas terras. Esse conflito mobilizou aproximadamente 20 mil pessoas, das quais cerca de 8 mil foram assassinadas pelo Estado. Os trabalhadores resistiam utilizando espingardas de caça, foices e enxadas, enquanto a Republica se mobilizava com soldados profissionais, equipados com metralhadoras, canhões e uma arma nova: o avião adaptado para a guerra.
Inúmeros são os exemplos que encontramos na história mais recente do Século XX do nosso país de processos de resistências e repressão. Podemos destacar algumas, por exemplo: Trompas e Formoso – GO (anos 40), Ligas Camponesas – PE e PB, Guerrilha do Araguaia – TO e PA (anos 70) e etc. Não apenas processos que tiveram como cenário o campo brasileiro. Também nas cidades houve muitas lutas que contestavam a exploração da classe trabalhadora. Atualmente, dois acontecimentos são simbólicos: a invasão no Morro do Alemão (final de 2010) e o despejo pela polícia militar em Ribeirão Preto na semana passada. Processos extremamente violentos, ao mesmo tempo em que a população não esboça nenhuma reação contra a ação violenta do Governo e do Estado brasileiro.
Especificamente no campo brasileiro, esses processos mais recentes da repressão das lutas dos trabalhadores é fruto do avanço das empresas capitalista no campo brasileiro que gera diversos conflitos com os trabalhadores do campo (conflito por terra, por água, direitos trabalhistas). Somente no ano de 2010 foram assassinadas 34 pessoas[5]. Se fizermos um recorte de 2002 a 2010, foram assassinados 347 pessoas no campo. Somente no Pará, nos últimos 10 anos, foram registrados 219 assassinados. Destes casos houve apenas 4 condenações, e 37 geraram inquéritos. É uma clara demonstração de omissão por parte do Governo brasileiro.
Nós do MST temos refletido sobre: o que tem gerado esse processo de mortes no campo? Nos últimos anos, especificamente do ano de 2002 até 2010, no Brasil, houve um processo de reconcentração de terras. No Brasil hoje, 46% das terras agricultáveis estão concentradas nas mãos de 1% da população. São grandes propriedades de terras, que não são apenas grandes latifúndios, mas uma forma de produzir baseada na utilização do que há de mais desenvolvido em tecnologia. Um setor que necessitou no ano passado de 90 bilhões em Reais de financiamentos por parte do Estado. Que tem representação partidária e uma grande bancada no Senado e Câmara dos Deputados.
No ano de 2010, a cada hora no Brasil, Empresas Estrangeiras compraram o equivalente a 22 campos de futebol por hora. Concentraram no ano passado, 515 mil hectares, sendo que 75% dessas terras são no Estado de São Paulo.
Em 21 de novembro de 2007, o MST realizou uma ocupação num Campo Experimental Syngenta Seeds no Estado do Paraná[6]. Nessa mesma ocupação, uma Empresa de Segurança Privada matou o companheiro Valmir Motta de Oliveira, mais conhecido como "Keno”.
Essa luta que estamos desenvolvendo em todos os Estados do território brasileiro é uma luta com uma natureza distinta. Que adota em alguns momentos o extermínio físico de muitos militantes, como vem acontecendo em vários Estados. É uma luta direta contra o Capital Internacional e Nacional, que tem o Estado, quando necessário, como instrumento de repressão. É uma luta que necessita de um amplo apoio e solidariedade de todos os setores da classe trabalhadora.
Mas, sobretudo de organização de lutas contra o Capital.
[1] Historiador e membro da Direção Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST/SP.
[2] Há um filme que se chama: Sacco e Vanzetti, 1971, Itália, 119 minutos.
Ver também artigo publicado na Folha da manhã em 22 de agosto de 1927.
[3] Uma bela exposição sobre o processo de repressão e resistência de Canudos foi escrito por Euclides da Cunha, que resultou no livro “Os Sertões”.
Ver também filme: “Guerra de Canudos”, Brasil, 1997, 169 minutos; E o documentário: “Sobreviventes — Os Filhos da Guerra de Canudos”, Brasil, 2005, 79 minutos”
[4] Há um filme chamado: “O Contestado – Restos Mortais”, 2009, Rio de Janeiro, 158 minutos
[5] Relatório anual da CPT: www.cptnacional.org.br. Conflitos no Campo do Brasil.
[6] Relatório anual da CPT: www.cptnacional.org.br. Assassinatos (pessoas que estavam ameaçadas de morte 2000-2011)